Há sítios onde eu regressaria algumas vezes, a outros regressarei sempre que puder. Sempre a desejar mais um dia, muitos dias. Acordar e adormecer, não ser visita, ficar ou ter a ilusão de que fico. Por isso é que, tendo passado a infância a fazer férias na Galiza, com os meus pais, a dormir num sítio e a partir de manhãzinha para outro, só adulta, quando por fim pude adormecer e acordar e adormecer outra vez em Compostela, andar sem destino e sem pressa pelas calçadas de granito, sentar-me, porque sim, na praça da Quintana, senti que a cidade e eu nos pertencíamos.
O deserto era uma viagem a fazer, em mim, há muitos anos, desde da aventura do “Terra dos Homens” e dos outros livros de avião, com correio, sobre a areia, que Saint-Exupèry escreveu. Algumas páginas da Grande Reportagem depois, também. Havia razão mais antiga. Como sou alentejana, esperava encontrar no deserto aquilo em que pensava como “hiper-Alentejo”. Espaço. Muito espaço: o espaço exacto. A noite toda. O silêncio todo. O horizonte longe, redondo. Um “o que é que eu estou a fazer aqui?” a crescer dentro sem aviso, num segundo, sem resposta, grande e novo como na primeira consciência. O mundo.
O desejo do deserto intensificou-se quando passei a viver em Lisboa. Lisboa é um amor furioso. Uma vez vista e vivida, nunca mais sai de nós. É azul, tem gaivotas, é decadente e bela, antiga e de todos os dias, é verde e luminosa sob as árvores. Mas eu estou sempre melhor onde há menos. E mais espaço, mais luz, um vento maior.
Isto para dizer que, quando por fim se começou, por cá, a falar numa ida ao Saara, eu não hesitei. E Marrocos, para mim, veio mais ou menos por arrasto. Podia ter sido a Tunísia ou a Namíbia. O Egipto. Desde que tivesse areia e fosse grande e eu tivesse a sensação de ficar. Fiquei. Agora, sempre que me quiser inteira, tenho de regressar. Agora, sim, a Marrocos. E já pode ter neve, o meu deserto. Na condição de haver tendas, chá, e pernas esgotadas ao fim do dia.
[O hiper-Alentejo do Saara fica para outro dia.]
[Este era um post sobre R.E.M., que ando a ouvir furiosamente pela milésima admirável vez. Comecei nos hits, depois aventurei-me no “Murmur”, no “Reckoning”, no “Document”. Hoje tenho estado a ouvir o “Automatic for the People”, que é escuro e todo perfeito como um bairro antigo, onde os sons e os versos nos serviram de casa e de onde nos esquecemos de trazer tudo quando – não – continuámos. Ocorreu-me como revisitar a música é parecido com o regresso a um lugar onde se foi feliz. Um segundo depois, porque a música é o que me vai distraindo da falta do espaço elementar, estava no deserto.]
[Martes, aquele ali, a servir chá, não é A Mãe?]



Eu sei que este poste ainda não é, há-de ser. Depois comento melhor (ou mais, que deve ser mais o caso). agora só me me apetece dizer: gosto tanto deste poste!
Ah, já percebi, dá para abrir isto >:> Sim, ainda falta um postaleco e reler hehe
Obrigada
Malditos códigos. Dão trabalho.
Magnífico post!
Muito sensível, com muita coragem em conseguires expor de forma tão crua e simples traços pessoais.
Tiro-te o chapéu Buzaranha!
Obrigada, Nuno.
Também tens um chapéu à Oliveira Jones? >:>
e esse quem é?
É como aquelas criaturas híbridas da mitologia antiga, metade isto, metade aquilo, mas mais recente… acontece quando certas e determinadas pessoas (uma metade: a pessoa) fazem um deserto com chapéu à Indiana Jones (outra metade: o chapéu Jones).
ok, ai si!
Também gosto de ir para sul, para o deserto, para o alentejo, para o profundo de cada um destes locais, de preferência “in the middle of nowhere”
Adoro tudo o que me traz tb recordações do alentejo….
hum…
ela estava a falar de mim, pá. tem a mania que é esperta. pelo menos não andei a armar-me em rainha africana pelo deserto. e ainda por cima a cheirar a toalhitas.
BLAUUUUUNDIE
praivate jouque.
alentejana? E atão foz côa?
e já sabes que não gosto que se refiram ao homem como “a mãe” é redutor da sua masculinidade. prefiro que se refiram ao nosso cozinheiro como “o mãe”. é mais homem.
essa da blauuundie era comigo? é que eu nunca cheiro a toalhitas, é mesmo a suor!
tu não estavas lá por isso não é para ti. praibate jouques, minha.