“O berço! Não há ninguém que não trema diante desta palavra. Tudo a depender dela, o bom e o mau, e a gente sem poder nada! Um momento social azado, o desvario de uma mãe, a ambição dum príncipe, a fidelidade dum aio e eis uma nação que surge contra todas as forças que querem fazer da terra um descampado colectivo. A espada triunfadora baliza as conquistas, açaima as próprias razões da natureza, e é mais um povo a viver, independente, singular, responsável. É mais um país que pelos séculos dos séculos terá de arrastar um destino próprio, a fazer milagres da pobreza do chão, das vogais da língua, do lirismo da alma. De vez em quando poderá ter um acesso de fúria e tentar fugir de si. Baldada ilusão. Onde chegar será sempre ele ainda, a morrer de saudades e a sonhar o regresso da aventura com uma pequena reforma. Como bálsamo, restar-lhe-á o narcisismo das façanhas passadas e o somático contentamento de ver crescer e progredir os mundos que descobriu e povoou. (…)”
Esta é a Polaroid da nossa pátria tirada há uns anos atrás por aquele homem e que também ele amava a liberdade, a simplicidade da terra dos homens e do nosso cantinho à beira-mar.
É a imagem do nosso Portugal tão idêntica ao que vemos hoje… Observo o que nos rodeia neste momento, depois de mergulhar naquela descrição de Torga e nem as cores parecem ter mudado. O brilho tímido dos olhos de quem parte à procura de melhor sorte, ou o rubor na face de quem deseja novas glórias e que anseia por se colocar em bicos de pés para que a sua voz lusitana e envaidecida seja ouvida acima das outras, e vive na ilusão de convergências e assume “pseudo-destaques” em pactos e cimeiras com antigos povos que também eles um dia foram chamados de pátria portuguesa, na então terra de Prestes João.
No final sentar-nos-emos todos numa cadeira feita de madeira e palha, de frente para o mar e com os olhos carregados de saudade e água salgada do mar que outrora navegámos, veremos aquilo que sempre fomos. Um povo que um dia conseguiu ir mais além, conquistando territórios jogados ao abandono num reino que nem a mãe queria, e ao mar que ninguém se atrevia a atravessar, desafiando assim o próprio destino.
Esta é a nossa história e é graças a ela que temos um futuro que ninguém nos poderá tirar. Quando muito, outros vergar-se-ão por respeito ao exemplo que demos.
“- Mas quem renega o ninho?Era o espectro de Soares dos Reis que fazia a pergunta, barbudo, infeliz, a macerar a mão de artista na cota de malha do fundador.-Eu cá não!
Respondia-lhe de costas voltadas para o mostrengo do Paço dos Duques de Bragança, com os olhos postos na capelinha de S. Miguel, toda ela aconchego à pia baptismal do rei obstinado. Dizia-me mais ao coração a pureza simbólica daquela pequenez do que a grandeza balofa do casarão.”
Texto retirado do “Portugal”, Miguel Torga
ps: Bom Natal, amigas
