“O segundo touro, Belmonte recebeu-o estático, a meio da praça, nos médios, depois de o ter observado a investir sobre as capas dos espadas da sua quadrilha. Vinha forte e carregado de vida. Vinha desembalado, com uma fúria que nada parecia capaz de travar. Mas ele não se mexeu quando o touro investiu pela primeira vez para a sua verónica. Por cima do ombro, viu-o seguir em frente com o balanço que levava e, então, rodou lentamente sobre os calcanhares, sem sair da mesma posição e voltou a citá-lo. Deixou que ele invadisse os seus terrenos, deixou que o seu corno lhe passasse a centímetros do corpo, sempre sem se mexer, e voltou a fazer o mesmo, por largas, meias verónicas e chicuelinas, até que ele percebesse quem mandava ali, no meio da praça. Depois, retirou-se para as tábuas, ficando a assistir à sorte de bandarilhas. Quando o touro ficou sozinho no centro da praça, castigado mas altivo, Juan Belmonte afastou-se das tábuas, deu uns passos em frente e, com um gesto circular da mão, dedicou o terceiro tércio, que se iria seguir, a toda a assistência. A multidão levantou-se para aplaudir e ainda estava de pé quando ele iniciou o “tércio da morte” e do capote, recebendo o touro com um natural sublime de calma junto às tábuas. E por aí se quedou longo tempo, alternando naturais com derechazos e depois com trin-cheras, da direita para a esquerda. No fim, matou recibiendo, com a mão direita segurando a espada, encostada ao peito e o touro carregando sobre si. A Maestranza levantou-se inteira a um só tempo e os gritos estalaram: “Belmonte, Belmonte!”
Não se trata de desprezo algum pela vida animal. Eu não o vejo desse modo. É um espectáculo que também agita pessoas, não de forma divertida, mas por respeito entre dois animais que se defrontam em faena, de forma igual.
Não tenho intenção de ferir qualquer susceptibilidade, nem mostar mediatismo barato. Apenas estou a aproveitar este espaço para dar também largas ao meu gosto pelo espéctáculo.
Porque não é só futebol espectáculo. Talvez até com mais respeito se consiga aceitar as regras desta luta.




A questão é: temos nós o direito de os sujeitar ao ‘espetáculo’? Porque eu não vejo respeito nem igualdade numa luta em que uma espécie acaba invariavelmente ferida, em sofrimento, e por vezes morta, enquanto a outra apenas tenta (inconscientemente?) provar uma superioridade que já não faz sentido nenhum nos dias de hoje.
Não obstante a minha discordância acho que é de louvar que se defenda aquilo que se gosta sem a arrogância tantas vezes associada aos defensores da tourada, e isso eu gostei de sentir ao ler este post.
Se calhar essa questão respondia-se de forma mais eloquente se fossemos recuar umas boas centenas de anos atrás, talvez à epoca da romanização. Assim sim, o espectáculo visto pelos olhos de alguém que vive numa sociedade do séc XXI, acharia deveras violento e desprovido de sentido civilizacional. Mas isso é entrar numa outra questão acerca do espectáculo tourada, que talvez ainda volte aqui a comentar.
Não entendas isto como fugir à tua questão, mas e o espectáculo do futebol hoje em dia? Terão aqueles senhores direito a sujeitar-nos ao “espectáculo”? Nas touradas pelo menos sabes ao que vais. Tem regras muito próprias dentro do recinto e acredita que quem lá vai não sente falta de respeito pelo animal. Além disso, aquilo não é nenhuma brincadeira, como eu já vi, há alguns anos atrás, aqui em território português, com os chamados “touros de morte”. Isso sim é um espectáculo degradante (especialmente para o animal), que apenas existe, graças a uma estúpida tradição que é “preciso” manter.
Não acho que se possa falar de respeito entre estes dois animais.
O touro não “respeita”, reage ao desconhecido, ao medo, à dor, à surpresa. O homem em cima do cavalo (ou apeado) também não respeita o animal. Se o fizesse não o feria. Pode temê-lo, mas apenas em dose q.b., pois sabe que as suas costas estão protegidas. Às vezes a cornada não passa a centímetros, mata, mas é essa possibilidade que faz com que as pessoas paguem o bilhete. É por esse “frisson” que se vai ao “espectáculo”.
Também não me parece que touro e homem se defrontem de forma “igual”. E isto é para mim tão evidente que quase nem me apetece explicar. O touro não escolhe estar ali, não escolhe o homem que defronta, não escolhe nada. Em que é que há a igualdade de que falas, Tempestade?
Quanto às pessoas que são agitadas pelo espectáculo, o que será que as agita? As belas roupas, os belos passos coreografados, as posturas vezes sem conta ensaiadas perante o espelho? O que as agita é, de facto, o sangue. O do animal em sofrimento enlouquecido (e quanto mais enlouquecido mais as gentes se agitam, se o touro vai às tábuas ou se se desinteressa do garboso cavaleiro a faena perde a “graça”, não é?) e, a eventualidade, muito remota, de tudo aquilo ser de facto perigoso para o ser humano.
Comentando o teu comentário à Jardineira Aprendiz, tourada e futebol são duas coisas de que não gosto, por motivos bem diferentes. Mas não vejo a relação que estabeleces entre ambos. “Aqueles senhores” não nos sujeitam a nada, a mim pelo menos não me sujeitam. Enquanto que na tourada, repito e sublinho o que disse a Jardineira, o touro não é ouvido nem achado.
Na minha opinião, a tourada é algo “deveras violento e desprovido de sentido civilizacional”, para utilizar as tuas palavras. Não é só degradante para o animal, é degradante para o ser humano que manifesta gáudio pela violentação a que assiste. Faz tanto sentido agora, como atirar cristãos aos leões no tempo dos romanos, ou como as lutas de galos, de cães, ou até como caçar por desporto. É a barbárie desprovida de sentido e sem justificação nenhuma e, portanto, irracional.
meu, também tu tinhas que falar em futebol.
mas olha para saber o que acho sobre isto digo-te para passares aqui http://malacompanhado.wordpress.com/2008/01/02/medalha-de-ouro/
parece que o meu quinto comentário desapareceu mas aqui fica o link http://malacompanhado.wordpress.com/2008/01/02/medalha-de-ouro/ sobre o que eu penso de certas e determinadas artes.
Já agora, sugiro o visionamento deste vídeo que encontrei no blogue da Jardineira Aprendiz:
http://coresterra.blogspot.com/2008/07/touradas.html
Esteva, deixa que te diga uma coisa.
É simplesmente estupidificador tentar tirar alguma conclusão daquele pseudo-filme. O tema assenta que nem uma luva neste meu post, curiosamente postado pela Jardineira Aprendiz no seu blog uns dias antes do meu. Mas não te estarás a sentir algo manipulada, por alguém com traços de intolerância e sei lá que mais, que num acesso de imaginação ridiculariza o tema?
Sabes, digo-te o mesmo que disse à Jardineira Aprendiz, há muito mais para além do que é ali espelhado, é preciso espreitar por detrás do pano do palco, para conhecer a peça toda e a tourada não é nenhuma brincadeira, ou diversão. Ou achas que sou algum insensivel por me sentar com mais 10 mil pessoas numa bancada a ver uma tourada de morte? Será que aquela mente iluminada que iamginou o filme sabe o que são direitos dos animais? Será que aquele idiota que fez o filme tem ideia do que é uma tourada? ou será que alguém alguma vez lhe explicou que há quem goste de as ver, mesmo que em Portugal tenham, sido proibidas? e tu o que achas disto? Tb engoles a pilula porque sim?
Irrita-me este puritanismo barato que eles gostam de fazer passar, através do chocante.
Peço desculpa de só responder agora, não tenho andado muito pelos blogs. Respondi-te com um pequeno testamento lá no cores da terra
De qualquer forma, ao ler os vossos comentários acrescentaria, a pobreza do espetáculo que é o futebol, e o relevo que se lhe dá, não justifica a tourada. (E há quem me garanta a pés juntos que o futebol é uma arte, sim senhor.) Como diz a Esteva, no futebol só a bola é que leva pontapés.
Mas para mim, talvez o mais importante seja o simbolismo da tourada, e o efeito que efectivamente esse simbolismo tem sobre uma sociedade que a aceita sem questionar, foi sobre isso que te respondi no cores.
No que diz respeito ao filme, eu concordo com a mensagem que passa. É a perspectiva de quem não está por dentro da tourada, sim. Mas não dará esse distanciamento uma perspectiva mais objectiva, mais racional e lógica? Não estou a falar de certo ou errado como uma forma de moralismo cego, estou a falar de uma ética que ultrapassa os limites das relações humanas e engloba os outros seres. Não haverá cabimento para ela, numa altura em que nos apercebemos da profundidade da interdependência que temos com esses seres?
Compreendo que possa chocar e provocar uma reacção emocional bastante negativa nos aficcionados. Mas infelizmente as mensagens brandas não passam. O que choca faz pensar, faz discutir. E talvez disso surja alguma coisa de positivo. Espero que esta nossa discussão seja um exemplo disso
eh pá, parem lá de falar de futebol.
até digo mais, nunca vi num jogo de futebol um jogador, treinador ou adepto a arrancar a bandeirola de canto e espetá-la nas costas de um qualquer árbitro.