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Archive for Dezembro, 2007

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Esta história do BCP e da CGD, da escolha dos respectivos presidentes e conselhos de administração, seria hilariante, se não fosse de fazer corar os mais impúdicos. Sempre se suspeitou que os partidos no poder se serviam do estado em vez de servir o estado, mas nunca como agora foi tão fácil confirmar as nossas suspeitas.

Neste caso BCP-CGD, os tipos do Bloco Central começam a perder a vergonha e não têm sequer pejo em vir para a praça pública defender os tachos para os seus bois, como se tal fosse a coisa mais natural do mundo.  O Menezes critica a nomeação do Vara, acusando o PS de politizar a coisa. O PS, para provar que a coisa dá para todos, cala o PSD com um tachito na CGD e somos amigos como dantes. Isto tudo à frente dos nossos olhos e com a maior naturalidade… Mau prenúncio para o novo ano.

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Humor político

O homem que gere a Saúde fecha SAPs por esse país fora e vai dizendo: é para o bem das populações, AH!AH! AH! Este não é o mesmo que inventou umas taxas moderadoras para estimular os doentes a não ficarem internados, já que os hospitais eram e são tããão bons que uma pessoa podia lá querer ficar indefinidamente? AH! AH! AH!

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Eu nasci no Marão e lá conheci palavras que não ouvi em mais lado nenhum. Infelizmente, a memória lembra-se sobretudo do estranhamento sentido ao ouvi-las, porém algumas delas permaneceram, vá-se lá saber porquê. Como o google  me decepcionou ao procurá-las, aqui ficam as três palavras de que hoje me lembro e o significado respectivo.

Teste significa cheio até à beirinha, ex. Enche-me esse panela teste.

Estreme significa puro, sem mistiura, ex. Não laves a roupa com lixívia estreme.

Arreguiçar significa morrer de frio, ex. Está tanto frio que estou quase a arreguiçar.

Da próxima vez que as procurar no google, a resposta será bem mais satisfatória, ihih!

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O meu coração luso

“O berço! Não há ninguém que não trema diante desta palavra. Tudo a depender dela, o bom e o mau, e a gente sem poder nada! Um momento social azado, o desvario de uma mãe, a ambição dum príncipe, a fidelidade dum aio e eis uma nação que surge contra todas as forças que querem fazer da terra um descampado colectivo. A espada triunfadora baliza as conquistas, açaima as próprias razões da natureza, e é mais um povo a viver, independente, singular, responsável. É mais um país que pelos séculos dos séculos terá de arrastar um destino próprio, a fazer milagres da pobreza do chão, das vogais da língua, do lirismo da alma. De vez em quando poderá ter um acesso de fúria e tentar fugir de si. Baldada ilusão. Onde chegar será sempre ele ainda, a morrer de saudades e a sonhar o regresso da aventura com uma pequena reforma. Como bálsamo, restar-lhe-á o narcisismo das façanhas passadas e o somático contentamento de ver crescer e progredir os mundos que descobriu e povoou. (…)” 

Esta é a Polaroid da nossa pátria tirada há uns anos atrás por aquele homem e que também ele amava a liberdade, a simplicidade da terra dos homens e do nosso cantinho à beira-mar.

É a imagem do nosso Portugal tão idêntica ao que vemos hoje… Observo o que nos rodeia neste momento, depois de mergulhar naquela descrição de Torga e nem as cores parecem ter mudado. O brilho tímido dos olhos de quem parte à procura de melhor sorte, ou o rubor na face de quem deseja novas glórias e que anseia por se colocar em bicos de pés para que a sua voz lusitana e envaidecida seja ouvida acima das outras, e vive na ilusão de convergências e assume “pseudo-destaques” em pactos e cimeiras com antigos povos que também eles um dia foram chamados de pátria portuguesa, na então terra de Prestes João.

No final sentar-nos-emos todos numa cadeira feita de madeira e palha, de frente para o mar e com os olhos carregados de saudade e água salgada do mar que outrora navegámos, veremos aquilo que sempre fomos. Um povo que um dia conseguiu ir mais além, conquistando territórios jogados ao abandono num reino que nem a mãe queria, e ao mar que ninguém se atrevia a atravessar, desafiando assim o próprio destino.

Esta é a nossa história e é graças a ela que temos um futuro que ninguém nos poderá tirar. Quando muito, outros vergar-se-ão por respeito ao exemplo que demos.

 “- Mas quem renega o ninho?Era o espectro de Soares dos Reis que fazia a pergunta, barbudo, infeliz, a macerar a mão de artista na cota de malha do fundador.-Eu cá não!

Respondia-lhe de costas voltadas para o mostrengo do Paço dos Duques de Bragança, com os olhos postos na capelinha de S. Miguel, toda ela aconchego à pia baptismal do rei obstinado. Dizia-me mais ao coração a pureza simbólica daquela pequenez do que a grandeza balofa do casarão.”

 

Texto retirado do “Portugal”, Miguel Torga

ps: Bom Natal, amigas

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O Natal – Scherzo

Boas notícias. Cientistas estão em vias
de sintetizar o princípio do Natal,
criar uma espécie de reforço vitamínico
para a bonomia sazonal.
A droga actua sobre os centros nervosos
onde se crê que reside a aptidão
para gerar o ódio, malquerença e egoísmo,
e faz de cada homem um irmão.

Tem um contra: só actua em Dezembro.
No resto do ano é inócua, não alcança.
Mas talvez seja melhor assim:
que diabo, ser sempre bonzinho também cansa.

De futuro, um mês antes, já se podem ingerir
pílulas de Natal após as refeições,
de forma que, quando o dito por fim chegue,
estejam repletos de Ntala os corações.

Quer dizer: está ao nosso alcance
interagir pela química com o calendário.
Passarmos a tratar o espírito de Natal
como se fosse uma gripe ao contrário.

Mas muitos torcem o nariz e dizem
que a droga é no fundo uma espécie de vacina
– e nada mais do que isso –
contra o medo de ver o fundo da latrina.

A. M. Pires Cabral, in Merry Christmas, ed. Averno

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O Navio de Espelhos

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny

(Como eu gosto deste poema, desta voz e desta música, assim os três juntinhos. Perfeito! Obrigada, Venus, por mo lembrares.)

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MRS. TYLER

Mrs. Tyler, a mulher do capitão,
a mulher do merceeiro, a mulher
misteriosa que morava no armário
dos nossos treze anos, que levava
a manhã toda a atravessar a nossa rua,
Mrs. Tyler tinha o dom de humedecer
as nossas noites, de cortar em dois
o dia, de sorrir-nos num enlevo
que durava três semanas.

O seu corpo era um país atordoante,
cujo mapa refazíamos, mental,
a cada aparição, lugar iniciático
por onde (se a Fortuna nos quisesse)
chegaríamos de pronto ao outro lado
da infância. Mas não estava, a nossa
deusa, pelos ajustes – mal nos via.

Talvez a divertisse ser o pêndulo
das vinte e quatro horas que lhe dávamos,
doentes, faca e foco do desejo
para inteiras gerações de rapazio;
mas disso não passava, de uma brasa,
de uma prece, que soprávamos
até perder a voz, o fôlego, a fé.

Mrs. Tyler, a quem todos tanto
amámos, Mrs. Tyler, onde estás?

Poema de José Miguel Silva,

 in Walkmen, de Manuel de Freitas e José Miguel Silva, edições  & etc. 

À venda a partir de Janeiro.

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