Introito
Lembrei-me de Cervantes, porque é contemporâneo ao período de maior apogeu económico e social de Espanha. Após puxar um bocado pela memória e apesar de ter tido alguma dificuldade em termos de consciência, achei que podiamos igualar aquele senhor ao nosso Luis de Camões, que também, verdade seja dita, foi um marco no periodo de maior pujança lusitano. Não obstante eu opine por outros escritores que melhor souberam retratar a nossa alma desde o primórdio da nossa pátria.

(Moinhos de vento em Consuegra)

(foz do rio Sado com a Serra da Arrábida)
Só esta minha opinião, decerto tem cento e cem apoiantes, como outros tanto do contra.
E eu até nem sou grande aficionado de Camões.
Mas estou a desviar-me do que queria aqui comentar. E de facto é aquilo que hoje encontramos no país nosso vizinho, ou como gostam alguns portugueses de chamar, o país de “nuestros hermanos”.
Não sou pró-ibérico, nem sequer tenho intenção alguma vez de colocar em causa a nossa integridade lusitana. Porquê? Porque gosto de ser português.
Mas depois do que vi no último europeu de futebol serviu de mote para escrever qualquer coisa sobre o que nos distingue neste momento do espírito espanhol. E aí sim, sinto que nos estamos a distanciar, não é pelos pontos que perdemos a correr atrás de uma bola de futebol, ou o tempo perdido à frente do ecrã, mas sim uma certa convicção que move aquela gente à procura de uma identidade de excelência “nacionalista”, que eu não encontro em nós. Quando digo nacionalista, não quero que seja entendido numa óptica política, mas sim de amor próprio a sua história, raízes como país, como sociedade. E digo-vos, olhando para o que era Espanha há uns anos atrás, quando atravessávamos a fronteira para ir comprar caramelos, mudou muito e em muita coisa. Acho que posso dizer isso - creio que não passa um único mês que não atravesse a fronteira até ao outro lado, nem que seja para ir passear um bocado e regressar.
Sinceramente, não gosto de espanhóis e no entanto uma das minhas tias preferidas é… espanhola, mais propriamente basca e é uma delícia de uma tia!
Mas a Espanha não é só feita de espanhóis matranbuzios e grosseiros, mas sim é feita de histórias de fim de ruas todas coloridas de sardinheiras penduradas nas varandas e marquises, com toldos que cobrem da canícula. De igrejas que só de olhar para os tectos até nos dá falta de ar, ou uma vertigem. De castelos de onde partiram para a reconquista Euricos presbíteros, pendurados em colinas altaneiras ainda lá imponentes, quão guardiões de um passado já longínquo.
É feita de homens e mulheres que saidos das “oficinas” se encontram na “plaza mayor” para tomar um copo de manzanilla no meio de balbúrdia estridente de conversas cruzadas. De fiestas e “férias” onde não podiam faltar touradas, com o seu brilho próprio de excitação, o cheiro a calor humano e ânsia de ver a “faena”.
Mulheres de meia idade, de olhos escuros ainda de dinastias almorávidas, pintadas e vestidas como se cada tarde fosse uma celebração na rua.
Isto é apenas um flash social daquele povo que tem sabido impor a sua personalidade enquanto país que não quer ficar no esquecimento.
Mas não é só deste retrato que a Espanha amadurece. Portugal tem necessidade da estabilidade económica deste país. Enquanto se mantiver aqueles crescimento, que permite ao Sr. Zapatero falar em superavit financeiro, nós aqui conseguimos viver criticando as orientações económico-financeiras que o nosso governo vai fazendo enquanto operações de cosmética, porque daquele lado vêm bons ventos. O pior é quando esse ventos sopram do lado contrário e deixamos de sentir o empurrão da estabilidade espanhola que nos tem levado tantas empresas a mandar para o lado de lá gente que só procura ganhar dinheiro com trabalho, não interessa se esse está a mais de mil quilómetros de Portugal. “Ali dá para ganhar dinheiro”, dizem eles. E dá, ou melhor até há cerca de um ano atrás dava, quando o investimento privado ainda sentia um puxão enorme com as reformas políticas ainda resultantes da explosão de exportações, e deficit imobiliário (motores daquela economia), associados a um reajuste da mão de obra na industria depois de uma década de crise no emprego.
È neste sentido de cumprimento de dever. De querer ficar no pelotão da frente dos países desenvolvidos que a Espanha tem procurado a excelência e manter o espírito do apogeu que viveu com a descoberta das Américas. É aqui que se percebe que a Espanha amadureceu e já não quer ser vista como o país do generalíssimo que a arrastou para uma guerra, como todas as guerras, sem sentido.
E Portugal que faz? Festeja a festa espanhola? Continua a atravessar a fronteira para ir comprar caramelos, ou meter gasolina mais barata?
O que é que nos falta para crescer em excelência, como país, que pretende manter uma identidade lusitana?
Acho que deviamos tirar algumas conclusões deste Europeu, para além de uma bola chutada por um grupo de rapazes mimados e novo ricos, que nos iludem continuamente e nos fazem manter areia nos olhos.
Não gosto de Camões, mas gosto de Pessoa, de Eugénio de Andrade, de Sophia de Mello Breyner, de Florbela Espanca, de Natália Correia, não pelo que eles escreveram, mas pelo legado adulto e patriótico que nos deixaram.